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Antique typewriter, Zurich

Rolls-Royce Tenta Consertar Erro

© IstoƉ Dinheiro (Brazil), 2016-11-04

Um dos maiores legados da operação Lava Jato – talvez o maior deles – será a lição de que o corruptor, aquele que paga a propina, é tão criminoso quanto o corrupto que a recebe. Outro ensinamento será a demonstração de que os desvios de conduta no meio corporativo não dependem de tamanho e nem de nacionalidade. Prova disso é a fabricante britânica de turbinas e peças para aviões Rolls-Royce, cujo faturamento foi de US$ 16,6 bilhões em 2015. O Serious Fraud Office (SFO), agência anticorrupção britânica, iniciou uma investigação contra a empresa por conta de supostos pagamentos de suborno em todo o planeta, durante anos, por meio de lobistas.

Por isso, a gigante também está na mira de órgãos, como o FBI, a polícia federal americana, que apuram irregularidades em doze países, entre eles Índia, China, Arábia Saudita e Brasil. Por aqui, a Rolls-Royce está envolvida justamente na Lava Jato. De acordo com delação do ex-gerente de serviços da Petrobras, Pedro Barusco, a empresa teria pago US$ 200 mil com o objetivo de obter vantagens na disputa por contratos de instalação de equipamentos avaliados em US$ 100 milhões em sete plataformas de petróleo. “A velocidade com que avança a globalização leva as empresas a uma competição pelo lucro muitas vezes sem critério”, diz Ricardo Cruz, especialista em compliance e professor da ESPM. “A falta de controle de processos e falha na gestão interna das companhias corrobora com casos como esse.”

Embora seja globalmente conhecida pelos suntuosos carros, preferidos por muitos milionários e famílias reais, a Rolls-Royce não possui mais ligação com a montadora. As duas divisões foram separadas na década de 1970. A de carros foi adquirida pela alemã BMW em 1998, enquanto a fabricante de turbinas e peças foi estatizada para, depois, voltar à mão da iniciativa privada. Hoje, apesar de ter 99,1% das suas ações negociadas na bolsa de Londres, a Rolls-Royce ainda preserva muito da ligação estatal. Um exemplo dessa conexão ocorreu no Rio de Janeiro.

Em 2014, quando a empresa anunciou uma fábrica para atender a Petrobras, o chanceler do Tesouro do Reino Unido, George Osborne, era um dos porta-vozes. Por conta de exemplos como este, o jornal inglês The Guardian diz que as investigações em curso têm potencial para alcançar, inclusive, políticos do Reino Unido. A divulgação das investigações na semana passada não mexeu com as ações da empresa, que se mantiveram estáveis. O sinal de alerta, porém, foi ligado. Segundo analistas, o que mais preocupa não é o fato da corrupção, mas a possibilidade de multas pesadas virem, principalmente, dos EUA.

“Essas acusações terão impacto limitado nos lucros, pois são problemas passados”, afirma Zafar Khan, analista do banco francês Société Générale. “É ruim para a reputação, mas as pessoas tendem a aceitar casos como esse por entenderem como ‘algo normal’ em países emergentes.” Outro fator dado pelos especialistas é que a atual gestão do CEO Warren East, iniciada em julho de 2015, vem sendo mais firme contra a corrupção em contratos da companhia. No entanto, a empresa tem visto seus números caírem por conta da desaceleração dos negócios na Europa e nos Estados Unidos.

No primeiro semestre de 2016, a sua receita líquida recuou 5%, para US$ 7,6 bilhões. Logo, a busca por mercados que cresçam de maneira exponencial precisa ser intensa. O grande problema, contudo, é que em muitos desses países os negócios em que a Rolls-Royce atua são controlados pelos governos. Na Indonésia, a empresa é acusada de pagar cerca de US$ 25 milhões a Tommy Suharto, filho do então ditador Suharto, deposto em 1998, para o comandante adquirir motores para aviões. Na Arábia Saudita, o problema é parecido: pagamento de US$ 28 milhões à família real a fim de conquistar contratos.

Esse tipo de comportamento é explicitado por uma pesquisa feita pela consultoria EY. Enquanto 21% dos executivos de países desenvolvidos acreditam que subornos e corrupção são práticas recorrentes no ambiente de negócio, esse percentual salta para 51% nos emergentes. “A corrupção em países emergentes não pode ser desculpa para se fazer o mesmo”, diz Rodrigo Tavares, presidente da consultora internacional Granito & Partners e professor da FGV. “As empresas podem agir de formas diferenciadas e diminuir os riscos com transparência, criando um ciclo vicioso positivo.”

A Rolls-Royce afirmou, por meio de nota oficial, que está auxiliando os órgãos envolvidos em todas as investigações e que não poderia comentar o caso em detalhes. Afirmou também que “não vai tolerar a má conduta de negócios ou comportamento inadequado de qualquer tipo e, nos últimos anos, tem intensificado o foco na ética, que são alicerces da cultura da empresa.” Na semana passada, um funcionário da Unaoil, empresa petrolífera baseada em Mônaco e parceira da companhia britânica em mercados como Iraque, Cazaquistão e Angola, afirmou ao FBI que pagou propina para conquistar contratos em diversas regiões em que era parceira da Rolls-Royce, mas sem citar a companhia britânica como cúmplice. Isso também está sendo investigado.